A oposição votou sim, e o discurso da situação ficou na gaveta

O vereador Lau puxou a fila da votação a favor do PL

Na sessão extraordinária da Câmara desta quarta-feira, dia 21, um projeto autorizando o Executivo a contratar um empréstimo de R$ 25 milhões acabou produzindo uma cena politicamente deliciosa: a oposição votou a favor, o projeto passou por unanimidade e, pelo que pude observar, teve gente da situação que ficou sem saber onde colocar o discurso.

Eu esperava questionamentos, divergências, aquele roteiro conhecido. Mas os oposicionistas concordaram com a proposta e deram seus votos favoráveis. Sou favorável também. O município precisa de investimentos e obras, com responsabilidade na aplicação dos recursos e fiscalização sobre cada centavo.

Agora, confesso: o melhor daquela sessão foi imaginar o tamanho do discurso que deve ter voltado para casa sem ser usado.

Pela expressão de alguns vereadores governistas, minha impressão foi de que já havia uma defesa apaixonada do prefeito esperando apenas a primeira crítica da oposição. Bastava alguém dizer “sou contra” para começar o espetáculo: “Vocês querem impedir o progresso! Vocês torcem contra o município! Vocês não deixam o prefeito trabalhar!”

Só que ninguém deu a deixa.

A oposição disse “sim”. E agora, excelência? Como fazer pose de escudo do prefeito se ninguém atirou uma pedra?

Foi aí que apareceu aquele sorriso amarelo, aquela cara de quem ensaiou a semana inteira e descobriu, na hora de subir ao palco, que a peça tinha sido cancelada. O empréstimo foi aprovado, mas o grande pronunciamento de salvador da administração ficou sem financiamento.

Não sei qual foi a estratégia da oposição. Não vou adivinhar pensamento de vereador. Mas o efeito foi interessante: ao apoiar o projeto, ela tirou de alguns governistas a oportunidade de transformar uma votação em mais uma demonstração pública de fidelidade ao prefeito.

E fidelidade, na política, tem gente que gosta de exibir com bastante volume. Afinal, vai que um discurso inflamado rende uns pontinhos de prestígio, uma atenção especial, quem sabe espaço para mais uma indicação? É aquela velha mania de apresentar a defesa do governo como se fosse currículo.

Dessa vez, porém, faltou adversário para o duelo. A oposição concordou com o prefeito e deixou os defensores profissionais com a espada na mão, procurando um dragão.

Gostei de ver. Apoiar uma proposta que se considera boa também é papel da oposição. Fiscalizar o empréstimo e a aplicação do dinheiro será obrigação de todos, inclusive dos que votaram “sim”.

No fim, a unanimidade aprovou os R$ 25 milhões e quebrou as canelas de quem, aparentemente, contava com uma briga para brilhar.

Tem vereador que se prepara tanto para combater a oposição que, quando ela concorda, chega a parecer contrariado.

Ora, meus amigos: o projeto passou. Não era essa a felicidade que estava todo mundo esperando?

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