Neymar e a revolta masculina diante da piada de Lula

Este não é um texto sobre futebol nem sobre as qualidades futebolísticas do atleta Neymar, mas sobre a reação de homens “adultos” diante de uma piada do presidente Lula, que, durante um evento, reproduziu uma tirada com o jogador da Seleção Brasileira, dizendo que ele seria o primeiro desportista na modalidade home office.
Feito o alerta, vamos adiante: assim que o vídeo com o presidente Lula surgiu na minha timeline, logo de cara pensei e brinquei com colegas: “Já, já o Tiago Leifert publica um vídeo imenso em defesa do Neymar e atacando o presidente Lula”. Bom, quem acompanha minimamente o dia a dia das redes sociais sabe que o jornalista esportivo é um dos principais defensores do jogador do Santos.
Mas não foi Tiago Leifert quem saiu em defesa de Neymar, e sim uma imensidão de homens. E algo que antes me parecia engraçado e tosco se transformou em incômodo e em uma pergunta: por que tantos homens se incomodam e saem em defesa de Neymar?
É sabido que a fundação do Ocidente e, consequentemente, de sua mentalidade, está diretamente vinculada à construção de mitos heróicos masculinos que ditaram comportamentos por longos séculos. Por exemplo, Aquiles e Odisseu, para ficarmos em dois modelos óbvios.
A mitologia em torno desses homens heroicos girava em torno de uma série de signos que ainda permeiam as mentalidades masculinas: corpos musculosos, destemidos, desejados por todas e todos e, claro, exímios atletas.
E mesmo Jesus Cristo, que era pacífico e não pregava a violência como Aquiles e Odisseu, tornou-se modelo masculino de resistência. Era destemido e optou pela morte voluntária para salvar a humanidade. Seu ato final deu início ao movimento do cristianismo, e o resto é história.
O que importa para nós é que todas essas figuras da Antiguidade e do Medievo sempre orbitam em torno dos mesmos símbolos: homens destemidos, bravos guerreiros. O esporte como um todo tem sua raiz em tais elementos.
Mas qual é a relação dos homens que choram por Neymar com os bravos guerreiros da Antiguidade? Corta para o fim do século XIX e a ascensão do futebol como prática esportiva adotada pela classe trabalhadora, que depois se tornaria a principal modalidade esportiva do século XX.
Os novos guerreiros do Olimpo
O futebol é parte da história moderna de países como Brasil e Inglaterra. Os atletas ocuparam – e ocupam – um lugar mítico nas mentalidades masculinas, e em torno deles foi construído todo um modo de vida que seria replicado no cinema, nas ciências sociais, na música, na vestimenta, na linguagem. Ou seja, formou-se uma cultura ainda predominantemente masculinista e, claro, profundamente misógina e homofóbica.
Dessa maneira, uma parcela significativa de homens construiu sua vida em torno dessas figuras, modo de vida que é imposto a seus filhos. Quando estes rejeitam tal modelo, são logo rejeitados e colocados sob suspeita. Não gostar do universo futebolístico é tratado como algo errado, fora da norma, o que também explica a presença constante da violência nessa forma de vida.
Mas nem tudo é trevas no mundo do futebol. No Brasil, há figuras que propagaram, a exemplo dos guerreiros da Antiguidade, o bom exemplo, como aqueles que compuseram a Democracia Corinthiana, recentemente exaltada pelo prefeito socialista de Nova York, Zohran Mamdani.
No entanto, a chegada de Neymar ao Olimpo moderno desnudou uma piora naquilo que já era bem ruim: uma forma de masculinidade infantilizada e alimentada por algoritmos, que extrapolou as fronteiras do futebol e tem se tornado um modo de vida capaz de alçar figuras toscas ao ponto mais alto do poder.
Lula e Neymar: a polarização das mentalidades
Não temos como saber como se comportava a fanbase de Aquiles e Odisseu durante a Antiguidade, mas convivemos diariamente com milhares de homens, figuras públicas ou não, que perdem completamente a linha quando o jogador Neymar é alvo de críticas ou chacotas.
O choro masculino em defesa de Neymar é revelador no que diz respeito à baixa qualidade da formação masculina dos últimos anos, algo que ficou evidente com a ascensão das redes sociais.
Notem que, na maioria das ocasiões em que centenas de homens reagem às críticas feitas a Neymar, suas posições não versam sobre futebol, mas sobre a simbologia masculina em torno do atleta da Seleção Brasileira e do Santos.
A rápida ascensão de Neymar no mundo do futebol o transformou no principal guerreiro do Olimpo moderno. Tive essa prova quando fui a Moçambique, em 2013, e, sempre que era interpelado pelos cidadãos do país africano, duas figuras surgiam nas conversas: Neymar e Lula. De lá para cá, passaram-se 13 anos. Portanto, não é equivocado afirmar que o jogador e o presidente da República polarizam as mentalidades brasileiras.
Os homens que prestam plantão para defender Neymar são produto direto de uma forma de produzir masculinidade vinculada diretamente às redes sociais, muitas vezes associada ao pensamento misógino e de extrema direita. Basta destacar que o jogador da Seleção é um apoiador declarado da família Bolsonaro e atuou na campanha do ex-presidente da República.
Em torno da imagem de Neymar, deparamo-nos com figuras profundamente violentas e, em sua maioria, militantes do ideário de extrema direita, que travam uma batalha cultural contra o avanço das mulheres desportistas do futebol e contra as torcidas futebolísticas LGBT.
Essa polarização entre apoiadores e detratores de Neymar é refletida diretamente na política do Brasil, mas também fora dela, quando paramos para analisar o tipo de masculinidade praticada por tais personagens: histriônicos, adoradores de teorias da conspiração, inimigos imaginários do comunismo, propagadores de fake news… uma piora total naquilo que já era precário.
O problema é que esses homens adultos com síndrome de Peter Pan e defensores de Neymar extrapolaram a esfera do esporte e das redes sociais e foram alçados ao mundo político. Furaram as fronteiras e hoje encontramos réplicas no comando de países como Argentina, EUA, El Salvador, Chile, talvez Colômbia, e querem retomar o poder no Brasil.
O Olimpo está degradado. O jogador não joga mais, mas seu corpo em estado de home office ainda mobiliza milhares de homens prontos para fazer qualquer coisa para defendê-lo. Tais figuras defendem Neymar porque ele se tornou fonte de inspiração, suspiro e desejo de algo que elas nunca vão alcançar: a glória no Olimpo. Mas vão lucrar horrores com apostas online.
Ruína masculina
A revolta masculina diante da piada de Lula com Neymar traz à tona o ápice da batalha cultural dos últimos 20 anos: o ponto de partida pode ser o futebol, mas o que está em jogo é a defesa do tradicional modelo de vida masculino.
Já não importa se Neymar joga ou não futebol, se vai ou não entregar algo na Copa do Mundo de 2026, mas tudo o que ele consegue organizar em torno de seu corpo, seja parado ou em movimento. Tal revolta diante da chacota com o atleta é o grito desesperado de homens que se sentem ameaçados de perder algo que nunca tiveram. Da Revista Fórum






















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