Quando a fé faz barulho demais: até onde vai a tradição que machuca?

Tem coisa que não dá mais pra engolir calado.
O que aconteceu ontem, dia 19, em Valença, não foi apenas uma procissão religiosa. Foi, para algumas famílias, um verdadeiro teste de resistência física e emocional, daqueles que deixam marcas.
Na porta de casa, uma família viveu momentos de desespero. Um neto autista, que já enfrenta diariamente os desafios do espectro, foi surpreendido por uma sequência de estampidos de fogos durante a passagem de uma procissão católica.
Não foram poucos. Não foram suaves. Foram explosões sucessivas, secas, agressivas.
Resultado?
Uma crise severa.
O menino entrou em pânico, gritos, descontrole, sofrimento puro. Quem conhece o autismo sabe: não é “manha”, não é “birra”. É dor. É o cérebro sendo invadido por um estímulo que ele simplesmente não consegue processar.
E a pergunta que fica é direta, sem rodeio: Até quando a tradição vai valer mais do que a vida das pessoas?
Porque não estamos falando só de crianças autistas. Estamos falando de idosos, de pessoas acamadas, de animais que também entram em desespero com esse tipo de barulho. É um problema coletivo, não isolado.
E não venha com essa de que “faz parte da tradição”.
A história já mostrou que muita coisa “tradicional” precisou acabar porque fazia mal. Tradição não pode ser escudo para ignorar sofrimento humano. Se causa dor, precisa ser revista. Simples assim.
Aliás, quando questionados, membros da própria igreja já disseram que é “impossível” acabar com os fogos.
Impossível?
Impossível é uma criança passar por uma crise daquela e alguém achar isso aceitável.
Impossível é uma família inteira sofrer dentro de casa enquanto do lado de fora alguém comemora fé com explosões que mais parecem guerra.
O que está faltando não é fé.
É sensibilidade.
Já passou da hora do poder público entrar nesse debate. O prefeito Marcos Medrado e os vereadores precisam encarar essa realidade.
Um decreto, um projeto de lei, qualquer medida que limite ou proíba fogos de estampido já não é mais questão de política.
É questão de humanidade.
Festa religiosa não precisa de barulho para ser forte. Fé não precisa de explosão para ser ouvida.
Porque, do jeito que está, enquanto uns celebram… outros estão vivendo verdadeiros momentos de terror dentro de casa.
E isso, convenhamos, não combina com nenhuma religião que pregue amor ao próximo.













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