Supremo não é palanque, e toga não é camisa de campanha

Por Pelegrini — Opinião

Vou dizer o que penso: a movimentação de André Mendonça no caso das mensagens de Daniel Vorcaro, atribuídas a uma interlocução com Alexandre de Moraes, merece ser observada também pela lente da política. Não estou decretando a inocência de ninguém. Estou questionando o ambiente, os interesses e o uso eleitoral desse episódio.

Mendonça foi ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e chegou ao Supremo por indicação dele. Isso, sozinho, não prova parcialidade, mas explica por que sua atuação desperta questionamentos quando pode beneficiar politicamente a família do ex-presidente. Quem veste a toga precisa demonstrar independência, inclusive de quem o colocou lá.

Na minha leitura, essa ofensiva contra Moraes corre o risco de transformar Mendonça em cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro — pelo efeito político de sua atuação, não porque esteja comprovada uma combinação de campanha. É justamente essa fronteira entre Justiça e interesse eleitoral que precisa ficar bem esclarecida.

Também não vou esconder um fato que contraria parte dessa desconfiança: Mendonça autorizou a investigação dos repasses de Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro, envolvendo Flávio. A cobrança, portanto, é que todos os casos recebam o mesmo rigor, com critérios claros e sem conveniência política.

Sobre Moraes, quero explicações, não condenação por manchete. Segundo a reportagem da Exame, não há respostas do ministro nos autos mencionados. É preciso esclarecer a interlocução, o contexto e o que os elementos realmente demonstram. Mensagem de um lado não pode virar automaticamente sentença contra o outro.

A PGR pediu a nulidade do relatório, questionando a maneira como a apuração foi determinada. Isso não representa absolvição de Moraes, mas mostra que a própria condução do caso está em discussão. Não cabe anunciar culpa nem garantir antecipadamente que tudo terminará em nada. Fonte: Folha.

Moraes, na minha avaliação, é um ministro cascudo e não deve recuar facilmente diante dessa pressão. Imagino que o embate continue. Mas não desejo um campeonato de revanche entre ministros: quero argumentos, provas e responsabilidade. O Supremo não pode funcionar na base do “hoje eu te atinjo, amanhã você me devolve”.

Não escondo meu lado: identifico-me com a esquerda porque valorizo uma política mais humana, preocupada com quem trabalha e precisa do serviço público. Em parte da direita, vejo uma vitrine de ostentação e aparência que me incomoda. Nada contra dinheiro, viagem ou procedimento estético. O problema é quando sobra preocupação com a própria imagem e falta compromisso com a vida dos outros.

Essa é minha opinião, não uma descrição de toda pessoa de direita nem um atestado de virtude para toda pessoa de esquerda. Minha preferência política não pode servir de desculpa para passar a mão na cabeça de quem errou.

Se Moraes cometeu irregularidade, que seja apurada. Se a condução de Mendonça ultrapassou limites, que também seja examinada. O que não aceito é a Justiça virar instrumento de campanha.

Porque toga não é camisa de candidato. E o Brasil precisa de um Supremo que entregue Justiça, não de mais um palanque.

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