O PRIMEIRO GOLPE.

imageNo post DOMADORES E FERAS, do dia 6 de novembro de 2008 http://pelegrini.org/politica/147, nós já profetizávamos sobre esse desenlace entre Wagner e Geddel, nossa profecia ainda não foi cumprida porque será no decorrer das eleições o seu ponto culminante, quando o governador Wagner em seus discursos dirá: Se não quiserem votar em mim podem votar no Geddel, e isto será por uma causa justa, de extrema importância para eles, que é a eleição de Dilma Rousself.

Aqui em Valença Wagner sofrerá outro golpe, desta vez com o seu novo aliado, o prefeito Ramiro Campelo. Há quem diga que será porque Ramiro não conseguirá levantar os seus 17.000 votos que obteve nas últimas eleições para prefeito. Nada disso, Ramiro gosta mesmo é de vibrar no final, pra ele não importa os gols que saem durante a partida, ele quer é vestir a camisa do ganhador. Lembram quando o Ministro da Integração esteve aqui em Valença para aquele encontro do PMDB? Quem o recepcionou no aeroporto? Claro que os aliados do PMDB estavam por lá, mas Ramiro disse que morria de paixão por Geddel desde menino, não fosse aquela vaia que o prefeito tomou por lá, até o seu discurso que estava pronto ele faria.

Agora vamos ver quem será fiel, quem fica e quem sai do governo Wagner. Nos próximos dias veremos coisas incríveis.

9 Respostas para O PRIMEIRO GOLPE.

  1. anônimo agosto 10, 2009 às 12:58 pm #

    E os PETISTAS aindem defendem Lula por orquestrar essa zona. Eles se merecem, todos eles se merecem. Lula não é diferente do Collor ou Sarney em nada. Em nada.

  2. Lina agosto 10, 2009 às 3:54 pm #

    O que eu soube é que Martiniano e Ramiro vão dar a Wagner em Valença (fechado em contrato e registrado em cartório) 30.000 votos. Será que eles estão com essa bola toda? Há quem diga que metade desses votos vem única e exclusivamente de Ruy, do PT… Risos! Essa foi um delírio, reconheço e me desculpo!

  3. Cidadão Valenciano agosto 10, 2009 às 4:23 pm #

    Bom!… Vamos lá, mais um comentário meu nesse modesto blog.

    Vale ressaltar que: 1) Ramiro apoiará Jaques Wagner no primeiro turno para não perder os cargos que possuem no Governo Estadual e os benefícios que está recebendo pela aliança realizada. 2) Ramiro nunca será oposição aos Democratas (DEM), pois controla o DEM em Valença e lavou por muito tempo dinheiro do Deputado Federal José Carlos Aleluia. 3) O PMDB de Valença vem amadurecendo ao longo do tempo, Ricardo Moura merece sim a oportunidade de administrar a cidade de Valença, mas deve se recordar que sozinho não se governa e precisará ser mais humilde em abraçar inimigos e aliados. Alguém recomende a ele o livro “Meditações” de Marcos Aurélio, primeiro imperador de Roma.

    Por aqui, vou ficando… e mais uma vez parabenizo o Blog!

    Saudações Fraternas.

    Cidadão Valenciano

  4. Leo agosto 10, 2009 às 6:45 pm #

    Cidadão Valenciano, Ricardo Moura não “é um homem de grupo”? Esse é o discurso dele o tempo todo… Aliados fazem parte do grupo. Quanto a inimigos, ai fica difícil… Botar inimigo no governo é coisa de maluco, meu irmão!

    Marco Aurélio, que perdeu o Império Romano pelo amor de Cleópatra? O que é isso, meu camarada!

    E pra terminar, esse blog não é modesto coisa nenhuma, esse blog é o blog, entendeu?

  5. Cidadão Valenciano agosto 11, 2009 às 11:16 am #

    Prezado Leo,

    Respeito seus comentários.

    Já percebi que não conhece o livro de Marcos Aurélio, meu camarada!

    Saudações.

  6. Leo agosto 11, 2009 às 9:19 pm #

    E eu que vc é mui amigo de Moura, meu camarada, rsrs! Adorei seu modesto comentário, nesse BIG BLOG!

  7. Lina agosto 12, 2009 às 2:21 am #

    Kakakaka… Marco Aurélio? Eu prefiro o Cézar… Muito mais charmoso, poderoso… Cidadão Valenciano, por favor, “daí a Cézar o que é de Cézar”… Deixa o MARCO, SÓ COMO UM MARCO… Fiquei curiosa, vou ler e depois marcaremos as aulas, ta? Mas tenho que concordar com o Leo… É seu comentário que é modesto, não o blog…Risos!

  8. HISTORIADOR agosto 12, 2009 às 2:30 am #

    PARA CIDADÃO VALENCIANO – É MARCO AURÉLIO E NÃO MARCOS AURÉLIO COMO VC TEM ESCRITO.

    Introdução
    de Maxwell Staniforth à sua tradução para a língua inglesa

    As Meditações de Marco Aurélio eram uma leitura muito na moda há duas gerações. Era o tempo em que o catálogo de qualquer bom editor incluía sempre uma elegante colecção de bolso dos clássicos; e, de entre estas, poucas haveria em que não aparecessem as Meditações. A voga já passou, mas talvez explique a razão por que o livro ainda é conhecido de nome por tanta gente, muito embora o conhecimento do seu conteúdo seja mais raro do que foi outrora. De facto, quando uma pessoa escolhe este livro, pode muito bem perguntar-se, «De que é que tratará? Que assuntos irei encontrar lá dentro?» Devo, por isso, e desde já, prevenir o leitor de que não pode esperar encontrar nele qualquer tema continuado ou conexo. Trata-se apenas do diário ou “livro de apontamentos” onde Marco Aurélio, de tempos a tempos, registava qualquer coisa que lhe parecesse merecer a pena guardar. Ora regista um pensamento sugerido por qualquer acontecimento recente ou encontro pessoal; ora medita sobre os mistérios da vida e da morte do homem; ora recorda uma máxima prática para o auto-aperfeiçoamento, ora transcreve das suas leituras do dia um pensamento de que gostou particularmente. Todos estes assuntos, e uma grande variedade de outros, são registados à medida que ocorreram ao escritor. O leitor pode iniciar a leitura do livro ou interrompê-la em qualquer ponto à sua escolha, e ler tantas ou tão poucas entradas quanto lhe apeteça. Em resumo, Marco deu-nos um excelente livro para ter na mesa de cabeceira.
    Os bibliotecários catalogam geralmente as Meditações, e sem dúvida bem, como “Filosofia”; mas isto pode induzir o leitor em erro, a menos que compreenda o lugar que a filosofia ocupava na antiguidade. Daquilo que ele conhece dos escritos dos representantes do século vinte deste ramo do saber, é pouco provável que conclua que o seu objectivo principal e final é a obtenção da virtude pessoal. Isso, imagina ele, é do foro da religião, não da filosofia. Mas na Antiguidade Clássica as coisas eram diferentes. A moralidade, a vida sã, as relações do homem com os deuses — tudo isto era do foro do filósofo e não do do sacerdote. A religião romana, no tempo do Império, não tinha nada a ver com os problemas morais. A sua função era simplesmente a da execução dos rituais que assegurassem a protecção dos deuses por parte do Estado, ou evitassem os efeitos do seu descontentamento. Era um sistema formal de cerimónias públicas realizadas por funcionários do Estado, e não dava resposta às dúvidas e dificuldades da alma humana. Contudo, então, como agora, o homem sentia-se perplexo perante as grandes questões que são preocupação de todos nós. Qual é a composição deste universo que nos rodeia, e como é que ele apareceu? Teria sido fruto de um acaso cego, ou da sábia Providência? Se os deuses existem, será que eles se interessam pelas coisas dos mortais? Qual é a natureza do homem, e qual o seu dever aqui, e o seu destino no além-túmulo? Não eram os sacerdotes, mas os filósofos, que se reclamavam da competência para dar resposta a estas questões. É verdade que as suas respostas não eram unânimes; havia sistemas filosóficos rivais, e cada um oferecia a sua própria solução (como, aliás, as diferentes religiões do mundo ainda fazem); mas todos concordavam que só à filosofia pertencia o direito exclusivo de se pronunciar com autoridade nos campos da metafísica, da teologia e da ética. Ela era considerada competente para explicar a história da criação, definir os poderes invisíveis por detrás da ordem do mundo, interpretar a natureza e o sentido da existência humana, prescrever as regras para uma vida sã, e revelar o futuro além-túmulo. Assim, a filosofia ocupava o lugar que, nos nossos dias, é ocupado pela religião, como instrutora e guia das almas em cada estádio das suas peregrinações terrenas. Esta pretensão justifica-se especialmente no caso do Estoicismo, que era marcado por um carácter mais religioso do que qualquer outro sistema da Antiguidade. Como o historiador Lecky observa, «O Estoicismo tornou-se a religião das classes instruídas. Ele fornecia os princípios da virtude, dava cor à mais nobre literatura da época, e guiava todos os desenvolvimentos do fervor moral».*
    O que isto significa é que um leitor que queira fazer uma abordagem correcta do pensamento de Marco Aurélio deve levar em linha de conta que as frequentes alusões do imperador à “filosofia” têm sempre o tipo de implicações que nós hoje associamos à palavra religião. Porque filosofia, para o homem que escreveu estas Meditações, significava tudo o que uma religião pode significar. Não era a procura de verdades abstractas, era uma regra para a vida. Em certo sentido, este livro é um verdadeiro manual de devoção pessoal, como A Imitação de Cristo de Thomas à Kempis — com o qual tem sido frequentemente comparado, e que, de facto, é a sua contrapartida cristã.

    A Filosofia Estóica

    O Estoicismo, o sistema filosófico em que Marco acreditava, foi, na sua origem, um produto do pensamento do Médio Oriente. Tinha sido fundado uns trezentos anos antes de Cristo por Zenão, oriundo de Citium (hoje Larnaka) em Chipre, e recebeu o seu nome da “Stoa” ou colonata, em Atenas, onde ele costumava dissertar. O seu principal discípulo foi Cleanthes, que por sua vez foi continuado por Chrysipo; e os sucessivos trabalhos destes três homens, que depois foram venerados como os “pais fundadores” do Estoicismo, resultaram na formação de um esquema de doutrina que abarcava «todas as coisas divinas e humanas». As três palavras-chave do credo de Zenão eram materialismo, monismo e mutação. Ou seja, ele considerava que tudo no universo — mesmo o tempo, mesmo o pensamento — tem uma qualquer espécie de substância corpórea (materialismo); que, em última análise, tudo se pode resumir a um simples princípio unificador (monismo); e que tudo está em perpétuo processo de mudança e a transformar-se em qualquer coisa diferente daquilo que antes era (mutação). Estes três dogmas foram os alicerces sobre os quais Zenão construiu toda a estrutura. A sua intransigente insistência nestes princípios levou-o por vezes a expor ideias perfeitamente indefensáveis; mas, nas mãos dos seus seguidores, as mais rígidas asserções do fundador foram modificadas e suavizadas de maneira a torná-las aceitáveis para os pensadores de espírito mais realista.
    Quando o Estoicismo passou do Oriente para o Ocidente e foi introduzido no mundo romano, assumiu um aspecto diferente. Foram os elementos morais dos ensinamentos de Zenão que aqui despertaram mais atenção, e o seu valor prático foi prontamente apreciado. Um código que era humano, racional e moderado, um código que insistia num procedimento justo e virtuoso, na auto-disciplina, numa força moral inabalável e numa completa libertação das tempestades da paixão adequava-se admiravelmente ao carácter romano. E consequentemente a reputação e influência do Estoicismo aumentou invariavelmente ao longo dos séculos que assistiram ao declínio da república e ao nascimento do principado; e por altura da ascensão de Marco Aurélio ao trono, tinha já atingido o ponto mais alto da sua supremacia. As suas concepções e a sua terminologia eram agora familiares aos homens e mulheres instruídos de todas as cidades importantes do Império
    Os Estóicos definiam a filosofia como «luta pela sabedoria»; e “sabedoria”, por sua vez, era definida como «conhecimento das coisas divinas e humanas». Dividiam este conhecimento em três ramos: a Lógica, a Física e a Ética.* Uma vez que o primeiro requisito para a procura da verdade é um pensamento claro e rigoroso, que, por sua vez, depende de um uso preciso das palavras e um vocabulário de termos técnicos, o estudo inicial era a Lógica. Depois vinha a investigação dos fenómenos naturais e das leis da natureza. E esta estendia-se até à interpretação metafísica do universo; pois, no esquema estóico, a Física incluía o estudo completo do Ser na sua tripla manifestação: o próprio homem, o universo criado à sua volta, e Deus. Por fim, colocado no lugar mais elevado e importante do sistema, vinha a Ética. Pois a verdadeira função da filosofia, o ponto para o qual convergiam todas as questões e ao qual estavam subordinados todos os ramos do conhecimento, era a própria conduta do homem, definida numa palavra, “virtude”. Como diz Diogenes Laertius, «eles comparam a filosofia a uma criatura vivente; os ossos e músculos correspondem à Lógica, a carne à Ética, e a alma à Física. Comparam-na também a um campo produtivo, do qual a Lógica é a vedação circundante, a Ética, a colheita que ela encerra, e a Física, o solo».? Convém resumir brevemente os seus ensinamentos sobre estes três pontos.
    (a) A Lógica. No sector da Lógica, tudo o que o leitor de Marco Aurélio precisa de saber é a teoria do conhecimento dos Estóicos e os meios de atingir esse conhecimento. No seu sistema, o conhecimento começa com impressões, que são produzidas pelo impacto das coisas ou qualidades sobre os sentidos. Depois fica para o poder do espírito o julgamento daquilo que os sentidos reportam: aceitá-lo como representação verdadeira da realidade objectiva, ou rejeitá-lo como falso. (A importância decisiva desta fase é repetidamente realçada por Marco). Algumas impressões, como é evidente, desencadeiam uma aceitação imediata e espontânea — como, por exemplo, a noção elementar de que o bem é benéfico e o mal prejudicial — mas noutros casos a aceitação só vem depois de ponderada reflexão; e pode variar entre uma aprovação hesitante, tão fraca e vacilante que apenas constitui uma mera “opinião”, e uma certeza categórica que só é produzida por uma chamada “impressão arrebatadora”. É uma impressão tão forte que, no dizer de um escritor, «como que agarra o sujeito pelos cabelos e lhe arranca a aceitação». Contudo, mesmo uma impressão deste tipo pode ser, de facto, imperfeita ou enganadora; e consequentemente a sua aceitação, por muito segura que seja, pode ser errónea. Deve, portanto, ser, em seguida, submetida ao escrutínio da razão, único poder soberano que pode emitir o passaporte para a convicção. Por fim, esta convicção pessoal tem de ser verificada por comparação com a experiência dos tempos e sabedorias passados, e confirmada pelo veredicto geral da humanidade; e torna-se então conhecimento. Ao explicar estes quatro estádios, Zenão costumava ilustrar as impressões com os dedos da mão estendidos, a aceitação com a mão fechada, a convicção com o punho cerrado, e o conhecimento com o punho firmemente agarrado pela outra mão.
    (b) A Física. Os físicos estóicos ensinavam que a fonte original do Ser em todas as suas formas é uma certa substância omnipresente em todo o universo, que pode ser mais bem descrita como Espírito. Contudo, como eles eram materialistas consumados, consideravam este Espírito como consistindo de uma matéria real e concreta, embora de uma espécie o mais fina e imperceptível que se possa imaginar. Numa analogia com o mais subtil e vivo dos elementos conhecidos, e que também alimenta a vida e o crescimento, conceberam a sua natureza essencial como a do Fogo; mas um fogo tão rarefeito e etéreo que a palavra “calor” talvez esteja mais próxima para a descrever do que qualquer coisa que possa sugerir uma ideia de chama real. Este Espírito-Fogo, que possuía consciência, objectivo e vontade, era simultaneamente o criador e a matéria do universo; tomava forma em inúmeras manifestações diferentes, dando assim às coisas a sua substância e forma, e produzindo a partir de si próprio o mundo visível e tudo o que dentro dele se encontra. De acordo com os variados contextos em que reflecte sobre isto, Marco dá-lhe muitos nomes: quando fala da sua acção sobre o universo como um todo, pode chamar-lhe Deus, Zeus, Natureza, Providência, Destino, Necessidade, ou Lei; como um dos elementos materiais da natureza, é Fogo, ou Ar, ou Força; em relação à constituição do próprio homem, torna-se Alma, Razão, Espírito, Sopro, ou (na linguagem técnica da psicologia Estóica) “a Faculdade-Mestra”. É importante lembrar que todas estas palavras são meros termos para designar o mesmo Espírito-Fogo criador nos seus variados aspectos.
    O Estoicismo é, portanto, um credo panteísta: isto é, considera que Deus está em toda a criação, mas não tem existência fora dela. E como tal, está em directa oposição aos ensinamentos rivais do Epicurismo. Epicuro, ao desenvolver as ideias de Demócrito, defendia que os únicos constituintes do universo são átomos e espaço vazio. Os átomos, em número infinito, estão em movimento contínuo e em alta velocidade no vácuo, e as suas colisões fortuitas produzem certas combinações que fazem o mundo tal como ele é em cada momento. Uma vez que este colidir incessante de átomo contra átomo no vórtice vai fazer nascer eternamente novas combinações e dispersões, a vida do universo continua a perpetuar-se infatigavelmente. É verdade que entre as infinitamente numerosas combinações possíveis, algumas terão necessariamente de parecer como se fossem o resultado de um desígnio; mas na realidade tal coisa, o desígnio, não existe, e tudo se deve ao acaso. O próprio Marco, em mais do que uma passagem das Meditações, considera as implicações desta teoria alternativa. «Haverá uma Providência sábia, ou apenas um amontoado desordenado de átomos?» pergunta ele; mas apenas para concluir que em qualquer dos casos as questões morais com as quais ele se preocupa sairiam incólumes. Pelo que a ele próprio respeita, a sua convicção sobre a direcção providencial do mundo não vacila.
    Para explicar o processo de criação, os Estóicos confiavam na teoria da tensão. A partir do facto de que a maioria dos corpos se expandem quando aquecidos, conclui-se claramente que o calor exerce uma pressão. Por consequência, o Espírito-Fogo, no seu estado primitivo de intenso calor e correspondente alta pressão, começa logo a expandir-se; e isto traz consigo um abrandamento proporcional da tensão. E daqui resulta que algum do fogo divino arrefece, se torna visível e se transforma no elemento, mais humilde, do terrestre fogo; e este, por sua vez, à medida que a tensão continua a baixar, condensa-se parcialmente em ar; e algumas porções de ar, por sua vez, solidificam, tornando-se água e terra. Nesta fase, entra em campo um movimento de sentido contrário; o calor vital contido nestes quatro elementos começa a afirmar a sua energia criadora e a materializar-se nas inúmeras formas e feitios que compõem o universo. Fisicamente, estas diferenciam-se de acordo com as proporções variáveis de fogo, ar, terra e água que contêm; noutros aspectos, a sua natureza depende do grau de tensão do fogo que os produz. Assim, num certo grau, esta força tornar-se-á nas formas orgânicas da vida vegetal; num grau mais elevado, nos animais ou “almas sem razão”; e depois disso, nas “almas racionais” características do homem. Dentro destas categorias podem produzir-se tantas formas do Ser quantos os diferentes graus de tensão. Na tensão máxima, o Espírito-Fogo adquire os atributos de uma Alma-Mundo, com a mesma relação com o universo que a alma individual tem com o próprio homem. A longo prazo, porém, virá um tempo em que esta energia em constante crescimento atinge um pico de intensidade que a torna devoradora da sua própria criação: uma após outra, as diferentes formas e substâncias dissolvem-se de novo nos seus elementos originais, a água evapora-se em ar, o ar transforma-se em chamas, e finalmente o universo desaparece numa grande conflagração a que nada sobrevive, excepto o primitivo Espírito-Fogo. Após o que, todo o processo recomeça; os sucessivos actos de criação repetem-se, e o padrão histórico desenrola-se como anteriormente. E tudo isto se repete em infindáveis ciclos cósmicos alternados de criação e destruição; e como as leis eternas são imutáveis, depois de cada conflagração, tudo o que aconteceu nos ciclos anteriores tem de reproduzir-se uma vez mais até ao mais pequeno pormenor.
    Quanto ao próprio homem, ele é um microcosmos que reflecte fielmente em si próprio o organismo mais vasto do universo. O seu corpo físico é formado a partir dos quatro elementos, e aquilo que o cria, que nele habita e que o controla é uma partícula do Espírito-Fogo omnipresente. Assim como este ígneo Poder no seu estado mais elevado e mais puro actua como alma do mundo, também aqui, residindo no corpo numa forma pouco menos etérea, ele desempenha o mesmo papel para o homem, criando e dirigindo a sua vida, os seus sentidos, os seus pensamentos e as suas emoções. É alimentado pelo sangue, e tem o seu assento no coração, o principal centro do sangue. (Daí que Marco se refira por duas vezes à alma como «uma exalação do sangue».)
    Na hora aprazada, a Natureza desfaz os elementos materiais que compuseram o corpo, de modo a usá-los para outros fins; e isto é aquilo que conhecemos como morte. Quanto àquilo que acontece à “ígnea partícula”, os Estóicos, como os Cristãos, não são unânimes. Todos concordam que mais tarde ou mais cedo ela terá de ser reabsorvida pelo Espírito-Fogo original, mas havia diferenças de opinião quanto à altura em que isso acontece. A doutrina mais antiga, a que Marco adere, era que, depois da dissolução do corpo, a alma continuava a viver nas regiões superiores do ar, e só era dissolvida de novo no Fogo-Mundo na conflagração final. Eram estes os ensinamentos de Cleanthes; Chrysipo, por outro lado, era de opinião que só as almas dos bons e dos sábios preservavam a sua identidade pessoal até ao fim do mundo, enquanto que aos maus e aos ignorantes era concedido apenas um curto período de sobrevivência antes da sua reabsorção. Outros pensadores consideravam que em todos os casos esta reabsorção se seguia imediatamente à morte; e ainda outros acreditavam num estado purgatorial no qual a alma sofria um processo de purificação física e moral como prelúdio da sua reunião com a substância-mundo.
    (c) A Ética. Os Estóicos ensinavam que o fim principal do homem, e o seu mais elevado bem, é a felicidade. Na sua visão, a felicidade era alcançada «vivendo de acordo com a Natureza». Esta famosa frase é muito facilmente mal interpretada pelo leitor moderno. Não significa viver uma vida simples, ou a vida do homem natural; e muito menos viver da maneira que muito bem queremos. Para apreender o seu significado, temos de nos lembrar que a “Natureza” é uma das designações dos Estóicos para o fogo divino que, além de criar todas as coisas, também as molda para os seus próprios fins. Assim, ela incarna a ideia que hoje nós exprimimos pela palavra “evolução”: o poeta americano que escreveu «Alguns chamam-lhe Evolução e outros chamam-lhe Deus» ficou muito perto da maneira de pensar dos Estóicos. Ela era a força que guiava e dirigia todos os tipos de crescimento ou desenvolvimento em direcção à perfeição final; e porque ela era também uma força viva, intencional e inteligente, os próprios Estóicos também, por vezes, lhe chamavam Deus. «Viver de acordo com a Natureza», portanto, não era uma máxima muito diferente da obrigação do Novo Testamento «Sede vós os seguidores de Deus», e implicava um ideal igualmente sublime e uma disciplina igualmente espinhosa.
    Se quisermos uma definição mais precisa desta “Vida Natural”, Marco diz que ela consiste, para cada criatura, numa estrita conformidade com o princípio essencial da constituição dessa mesma criatura. No caso do homem, este princípio essencial é a sua razão, que é parte da Razão universal. Desde que, portanto, ele siga esta lei racional do seu ser, aproxima-se da felicidade; se se afasta dela, não a alcançará. A Vida Natural é, de facto, a vida controlada pela razão; e tal vida é descrita, em resumo, como “virtude”. É o significado de virtude que explica o dogma estóico que diz que «a virtude é o único bem, e a felicidade consiste exclusivamente na virtude».
    A razão diz-nos claramente que algumas coisas estão no nosso poder e outras não. Por exemplo, a saúde física, a riqueza, os amigos, a morte, e outras deste tipo, estão fora do nosso controle; portanto, não podem ser nem ajudas nem obstáculos à Vida Natural. São “coisas neutras”. Mas a nossa própria vontade, os nossos juízos, o nosso poder de aceitar o que é moralmente correcto ou rejeitar o contrário – tudo isto está no nosso próprio poder. Daí que nada exterior a nós nos pode, por si só, afectar; só quando interiormente o aceitamos ou recusamos é que ele nos pode beneficiar ou prejudicar. O prazer, em si próprio, não é um bem, nem a dor, por si só, um mal; tornam-se uma ou outra coisa quando nós assim as julgamos. É este o significado da insistência de Marco em que «a opinião é tudo». E também explica a presteza do sábio, que tantas vezes encontramos realçada nas suas páginas, em «aceitar sem ressentimento tudo que lhe possa acontecer»; um preceito que é claramente um dos esteios da sua vida pessoal. É este o princípio que está por detrás da famosa “apatia”, ou “impassividade”, do sábio estóico ideal. Este, como ensinavam os filósofos, experimentará todas as sensações e emoções que são comuns ao homem, mas, porque se recusa a vê-las como males, não será afectado por elas. Considerando-as como coisas exteriores e portanto neutras, ele fica seguro e incólume. Consequentemente, como os Estóicos afirmavam (para grande divertimento do poeta Epicurista Horácio), só o sábio é verdadeiro rei, rico, apesar da sua pobreza, feliz, apesar do seu sofrimento físico, livre, mesmo se escravo, sereno e auto-suficiente em todas as vicissitudes. Se as circunstâncias alguma vez se mostrarem excessivas para este desprendimento, ele não hesitará em deixar voluntariamente a vida; porque a vida, simplesmente, está também entre as coisas que são neutras. Tanto Zenão como Cleanthes morreram pelas próprias mãos, e nós vamos encontrar o próprio Marco mais do que uma vez entregue ao pensamento de que, em certas condições, fica melhor ao filósofo deixar a vida do que permanecer nela.
    Tão inequívoco como o dever do homem para consigo próprio, é o seu dever para com os outros. Uma vez que todos os homens são manifestações do Espírito-Fogo uno e criador, a doutrina da fraternidade universal tinha um papel primordial no sistema estóico. O instinto racional e social é uma coisa inerente à constituição do homem. A bondade para com o seu semelhante é pois sua obrigação de todos os tempos; tem de aprender a ser tolerante para com as suas faltas, descontar a sua ignorância, perdoar os seus erros e ajudá-lo nas suas necessidades. Para Marco, esta nem sempre era das tarefas mais fáceis; a própria frequência com que ele recorda a si próprio que a boa vizinhança é uma parte importante da Vida Natural sugere que, na prática, ela, por vezes, constituía uma pressão sobre a sua capacidade de benevolência. Contudo, reconhece inteiramente que o homem é um ser social, feito para agir socialmente. Aceita o axioma estóico de que todo o universo é uma sociedade organizada; uma comunidade cívica na qual o divino e o humano residem juntos numa cidadania comum. (Anteriormente, os Cínicos tinham-na descrito como a cosmo-polis: a cidade que acompanha todo o cosmos em extensão.) Nas suas próprias palavras, «o mundo é como se fosse uma só cidade»; e assim como, para os atenienses, Atenas era a “querida cidade de Cecrops”, para o filósofo, o universo é “a querida cidade de Deus”».

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    Marco Aurélio António

    Marco Annio Vero, o futuro imperador de Roma, nasceu em 26 de Abril de 121 a. D. durante o reinado do Imperador Adriano. O pai, Annio Vero, era um nobre romano, e o avô, com o mesmo nome, tinha sido Prefeito da Cidade e, por três vezes, Cônsul. Ambos os pais morreram ainda novos e, depois da morte do pai, Marco foi adoptado pelo avô, de quem ele fala com caloroso afecto e respeito. Os anos da infância foram felizes, e de estudo; uma série de tutores dos mais competentes tomaram conta da sua educação e treinaram-no nas doutrinas da filosofia estóica; e embora a sua saúde não fosse nunca muito robusta, gostava de montar a cavalo, caçar, lutar, e de jogos de ar livre. Quando tinha dezassete anos, o Imperador Adriano morreu e sucedeu-lhe Aurélio António (vulgarmente conhecido como António Pio), cuja mulher era uma tia de Marco chamada Faustina. Não tendo filhos varões, António adoptou o jovem sobrinho de sua mulher, mudou-lhe o nome para Marco Aurélio António, nomeou-o seu sucessor e prometeu-o em casamento à sua filha Faustina. O grau de felicidade que Marco encontrou neste casamento é, e continuará por ventura a ser, um enigma. Os cronistas contemporâneos deliciam-se a relatar pormenorizadamente histórias da despudorada licenciosidade da mulher, e afirmam que ela era tratada com uma indulgência censurável por um marido de longe bom demais para ela. Contudo, as provas de tudo isto são duvidosas; e o certo é que, quando ela morreu, trinta anos mais tarde, Marco sofreu com a sua perda. Ela dera-lhe cinco filhos que ele amava apaixonadamente; mas a morte roubou-lhe sucessivamente todos eles, à excepção do inútil Cómodo, que viveu o suficiente para suceder ao pai.
    Dos dezassete aos quarenta anos, como companheiro próximo e colega de António, Marco entregou-se à aprendizagem das artes de governo e à preparação para os seus futuros deveres de imperador. Nesses anos a majestosa imensidão da pax romana, mantida pela administração imperial, estendeu-se a toda a Europa Ocidental e do Sul, ao Norte de África, à Ásia Menor, à Arménia e à Síria. Mas muito do fardo da governação deste vasto domínio centrava-se na pessoa do próprio imperador; e quando António morreu, em 161, caiu sobre Marco uma enorme e pesada responsabilidade. Contrariando os desejos do Senado, levou consigo para o trono, como colega, Lúcio Vero, o outro filho adoptivo de António; e, pela primeira vez, Roma assistiu ao espectáculo de dois imperadores. Quase simultaneamente, os longos anos de serenidade imperial chegaram ao fim. Uma peste espalhou-se desastrosamente por todo o mundo ocidental. Inundações destruíram grandes quantidades de cereal em Roma, obrigando Marco a vender as jóias reais para aliviar o sofrimento dos seus súbditos famintos. A juntar à ansiedade da peste e da fome, ele encontrou-se a braços com sinais de guerra. A paz foi quebrada pelo fragor das armas; nas fronteiras orientais, bandos de ferozes homens tribais do Marcomanni (“homens das marcas”), Quadi, e Sarmati invadiram a raia numa série de tentativas determinadas de penetrar nas defesas do Império. Perante esta ameaça, Marco deixou Roma em 167 para assumir pessoalmente o comando das suas legiões depauperadas no Danúbio. Em 169 Vero morreu, e durante a maior parte dos treze anos seguintes Marco ficou só no seu posto. Durante um curto intervalo foi chamado à Ásia, onde o comandante das tropas, Avídeo Cássio, se revoltou e se fez proclamar imperador. Mas Cássio foi assassinado por dois dos seus oficiais; e, como é característico de Marco, quando aqueles lhe trouxeram, a cabeça decepada, ele recuou e recusou recebê-los. Ordenou que todos os papéis de Cássio fossem queimados por ler, e tratou os rebeldes com clemência. Durante esta expedição ao Oriente, a sua mulher Faustina, que o acompanhara, morreu; e Marco voltou para o Danúbio para retomar a tarefa de suster a maré invasora da barbárie. Aí, por entre os pântanos enevoados e as ilhas fumegantes daquela melancólica região, ele buscava consolo para as suas horas de solidão e exílio na redacção das suas Meditações. Anos de trabalho árduo e conflito tinham-lhe exaurido o espírito; estava cansado da vida, e, nas suas próprias palavras, «à espera da saída para o retiro». Quando, por fim, uma doença infecciosa o atacou, ele ainda se arrastou alguns dias, vindo a morrer em 17 de Março de 180, com cinquenta e nove anos de idade e dezanove de reinado. «Não chorai por mim,» foram as suas últimas palavras, «pensem antes na pestilência e na morte de tantos outros».
    Sugerir que Marco não era um verdadeiro estóico parece paradoxal. Contudo as suas meditações revelam um tipo de carácter que dificilmente agradaria a Zenão ou a Chrysipo. Os humores variando entre a esperança e a depressão, o sensível retraimento perante companheiros desagradáveis ou a vista de sangue, a ânsia reprimida, mas evidente, por simpatia e afecto — tudo isto não eram sinais de um carácter moldado à antiga maneira estóica. A verdade é que Marco representa uma fase transitória de pensamento. Em lugar da velha afirmação de auto-suficiência, há uma timidez e uma predisposição para reconhecer os próprios fracassos; em vez da estóica virtude do orgulho, ele parece antecipar a virtude cristã da humildade. Por isso, ainda mais simpatizamos com as suas repetidas lutas pelo autodomínio e pelos seus esforços por orientar todos os impulsos naturais e emoções para o implacável serviço do dever. Sem dúvida que esta constante preocupação em se aperfeiçoar, esta insistência em aperfeiçoar máximas e lugares-comuns morais, produziram uma impressão desagradável em alguns leitores; e houve mesmo detractores que chamaram a Marco impostor e pedante. Penso que tal juízo mostra falta de entendimento da natureza do temperamento religioso; porque quando um homem toma a sua religião seriamente, o auto-exame consciencioso e a aspiração à virtude têm obrigatoriamente de constituir uma muito grande parte de todas as suas peregrinações interiores e meditações. Aliás, os escritos de um S. Paulo ou de um Thomas à Kempis mostram tantos conselhos, exortações à santidade e citações de autoridades canónicas como as que encontramos em Marco; contudo, ninguém teve a audácia de acusar os seus autores de insinceridade — apesar mesmo das suas confessadas intenções de escrever para a edificação de uma larga faixa de leitores. Quando, por outro lado, escutamos as secretas conversas íntimas do imperador-filósofo com a sua própria alma, e nos lembramos de que ele nunca se dirige a qualquer ouvinte humano a não ser ele próprio, creio que o nosso instinto nos diz que estamos na presença de um homem simples, humilde e absolutamente sincero. Um pequeno facto, mas significativo, em que até agora, e tanto quanto eu sei, nenhum dos seus editores reparou, parece revelar a sua genuína bondade. Quando ele tem a oportunidade de se referir a pessoas em termos de louvor, nunca deixa de registar os seus nomes. Mas quando, como por vezes acontece, ele se permite um comentário desfavorável, um véu de secretismo cobre o transgressor, e nós ficamos apenas com um indício da sua identidade que nos é fornecido por um nada revelador “ele” ou “eles”.* Este caridoso hábito — que podia talvez ser recomendado a alguns dos que hoje escrevem as suas memórias — merece particular atenção em alguém cuja sensibilidade deve ter sofrido quase diariamente afrontas das maneiras e da sociedade de então.
    «Guiai-me, Zeus e Destino», diz a prece de Epicteto, «para onde quer que eu seja mandado. Obedecerei sem hesitar; mesmo que venha a tornar-me cobarde ou me retraia, sempre terei de ir». Estas palavras exprimem adequadamente a atitude de Marco perante a vida. Se ele observa obliquamente que se trata «mais de luta do que de dança», a sua firmeza não vacila; e a peculiar doçura e delicadeza do seu carácter exerceu uma atracção que estes laivos de pessimismo não diminuem. «Santo e sábio por natureza, imperador e guerreiro por profissão», ele contempla, da solitária altura em que se encontra, as dores da mortalidade com olhos que estão desiludidos, porém serenos. «E portanto,» citando a homenagem de Mathew Arnold, «ele continua o amigo especial e o consolador das almas escrupulosas e difíceis, mas de coração puro e empenhadas na elevação, especialmente naquelas idades em que caminham à vista, e não por fé, mas em que ainda não têm uma visão aberta: a essas almas, talvez ele não possa dar tudo aquilo por que elas anseiam, mas dá-lhes muito, e o que ele lhes dá podem eles receber». E sobre aquela sua estátua equestre que se ergue na Piazza Compidoglio, em Roma, escreveu Henry James que «na capital da Cristandade, o retrato mais sugestivo da consciência cristã é a de um imperador pagão».
    Enquanto os homens continuarem a ser atraídos pelas lágrimas e triunfos da bondade humana, não faltarão leitores a Marco Aurélio. Melancólico, compassivo e desencantado, o último dos Estóicos ainda envergonha as nossas fraquezas e silencia a nossa insatisfação.

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    Estoicismo e Cristianismo

    Em conclusão, o leitor pode com algum proveito ser levado a pensar que a teologia da Igreja Cristã tem uma grande dívida para com o Estoicismo. No evangelho original de Cristo predominavam os elementos morais e espirituais, e o elemento intelectual estava-lhes perfeitamente subordinado. Mas quando a mensagem se espalhou para além dos confins da Palestina, e as suas implicações foram assimiladas pelos pensadores de outras terras, fez-se sentir a necessidade de concepções mais exactas da verdade. Tornou-se evidente que a nova fé tinha de levantar uma multiplicidade de questões nos campos da cosmogonia, da metafísica, da psicologia e da ética; e para todas elas a Igreja tinha de descobrir um qualquer sistema coerente de respostas. Felizmente, muita da matéria necessária para a tarefa estava ali à mão. O solo já tinha sido explorado pelas escolas da filosofia pagã, e as suas descobertas constituíram o corpo de conhecimento científico contemporâneo aceite. Muitos dos homens que integraram a comunidade cristã durante o segundo século tinham sido educados nestas doutrinas desde a juventude; a sua maioria, nos princípios do Estoicismo, uma vez que este sistema, mais do que qualquer outro, atraía o tipo de espírito naturalmente religioso. Para eles se viraram, pois, os homens da igreja na procura de ajuda para a construção da estrutura da sua teologia. Isto não implica uma apropriação acrítica e por atacado das ideias pagãs. Muito pelo contrário, quando uma teoria filosófica parecia sugerir as linhas ao longo das quais o pensamento cristão podia procurar a sua própria solução de um problema, era adoptada como hipótese de trabalho e testada nas suas possibilidades; após o que, numa forma adequadamente modificada, podia encontrar o seu lugar na nova religião. Nas palavras do Dr. Prestige, «era a ideia que era afeiçoada para servir à fé cristã, e não a fé que era afeiçoada para nela poder caber a concepção importada».*
    Por exemplo, o autor do quarto evangelho declara que Cristo é a Logos. Esta expressão (que significa “razão” ou “palavra”) fora já durante muito tempo um dos principais termos do Estoicismo, escolhido originalmente com o objectivo de explicar como a divindade entrou em relação com o universo. De acordo com os filósofos, a Razão divina dera existência ao mundo por meio de inúmeras partículas de si própria que habitaram e deram forma a toda a criação. Esta versão da origem do universo, já profundamente arreigada na geração sua contemporânea, foi aceite, em princípio, pelo evangelista. Ele afirma, contudo, que o meio pelo qual Deus se manifestou na criação e manutenção do mundo não é uma Logos múltipla, mas sim una e pessoal, gerada de si próprio. «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram criadas por ele, e sem ele não existia nada do que foi feito».? Assim recebe a metafísica estóica o baptismo cristão.
    Outro conceito estóico que inspirou a Igreja foi o do “Espírito divino”. Ao querer dar um significado mais explícito ao “fogo criador” de Zenão, Cleanthes fora o primeiro a descobrir o termo pneuma, ou “espírito” para o descrever. Como o fogo, este “espírito” inteligente foi imaginado como uma ténue substância semelhante à corrente de ar ou sopro, mas possuindo essencialmente a qualidade do calor; era imanente no universo, como Deus, e no homem, como alma e princípio criador de vida. É evidente que isto não está muito longe do “Espírito Santo” da teologia cristã, o “Senhor e Criador da vida”, manifestado visivelmente como línguas de fogo no Pentecostes e desde então sempre associado — no espírito cristão bem como no estóico — às ideias de fogo vital e calor benéfico.
    Também na doutrina da Trindade, a concepção eclesiástica do Pai, Verbo e Espírito encontra o seu gérmen nos diferentes nomes Estóicos para a Divina Unidade. Assim, Séneca, ao escrever sobre o supremo Poder que molda o universo, afirma, «A este Poder chamamos nós umas vezes Deus Todo Poderoso, outras vezes, Sabedoria incorpórea, ou Espírito santo, ou ainda Destino». A Igreja apenas teve de rejeitar o último destes termos para chegar à sua própria definição aceitável da Natureza Divina; enquanto que a posterior afirmação de que «estes três são Um só», que o espírito moderno considera paradoxal, era um perfeito lugar-comum para aqueles mais familiarizados com as noções estóicas.
    Outros exemplos de ideias cristãs que já tinham sido ensacadas pelos Estóicos são a convicção de que os homens são «filhos de Deus»? e partilham da sua natureza, e a consequente crença de que devemos considerar todos os homens como nossos irmãos e não perder nenhuma oportunidade de fazer bem ao nosso semelhante. Um dos últimos escritores do Novo Testamento também avalizou com a autoridade cristã a crença estóica na conflagração final do universo.* Também uma notável contribuição estóica para a Igreja, e que teve uma influência duradoura, foi a prática do ascetismo. Os cristãos que desejavam seguir os conselhos da perfeição tomaram o sábio estóico e o seu modo de vida como exemplo formal. As vestes grosseiras, o cabelo e barba descuidados foram adoptados como distintivos da aspiração à santidade. Assim como o professor estóico costumava deixar a sociedade e meditar em solidão, os seus imitadores cristãos não só seguiram o seu exemplo como se apropriaram da sua terminologia. No vocabulário estóico, aquele que se recolhia num retiro era um “anacoreta”; aquele que praticava a autodisciplina era um “asceta”, aqueles que viviam separados dos seus semelhantes eram “monacais” e o lugar do seu recolhimento era um “mosteiro”. Cada uma destas expressões manteve o seu lugar e significado na linguagem da Igreja até hoje.
    Contudo, talvez o melhor testemunho da maneira como as ideias estóicas penetraram no pensamento cristão se encontre num tratado que se tornou a base da filosofia moral medieval, Os Deveres, de Santo Ambrósio de Milão. Aqui, os conceitos bíblicos da rectidão e da santidade são quase totalmente substituídos por doutrinas anteriores da ortodoxia estóica. A voz é a de um bispo cristão, mas os preceitos são de Zenão. Não é a santidade, mas a felicidade que aparece como ideal de vida; e a vida feliz é uma vida de acordo com a natureza. Tal vida alcança-se pela virtude, porque a virtude é «o mais elevado bem»; e a virtude é uma vez mais decomposta nos seus elementos pagãos de justiça, prudência, temperança e força moral. E o mais notável de tudo isto é que se declara a vida feliz e virtuosa como completamente realizável durante a nossa estada aqui na terra; e a esperança de uma futura bem-aventurança torna-se um motivo não primordial, mas secundário.
    Perante estas e outras afirmações semelhantes de um prelado e doutor da Igreja, quem será capaz de negar o direito do Estoicismo de ser chamado, nas palavras de um escritor do nosso tempo, «uma raiz do Cristianismo»?

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  9. bira do Sindmoto agosto 12, 2009 às 8:26 am #

    Caro amigo:Cidadão Valenciano
    ago 10th, 2009 em 4:23 pm – Esse negócio de abraçar os inimigos é ahi que mora o perigo e os danos irreparaveis, principalmente para a população que elege facinoras que negocia cargos abraçando os inimigos e o resultado taí, Valença parada no tempo, e o povo se lascando com fome miséria e desemprego enquanto as forças de atrazo que não querem sair do poder continua comendo caviar, se dizendo lideranças, mas na verdade são odiados pelo povo, se voce apoia esses tipos de negociatas precisa aprender a votar ou então está almejando um carguinho.

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