Naquele menino, eu também enxerguei meu neto

Tem coisa que a gente vê e não consegue simplesmente seguir o dia. A imagem daquele garotinho oferecendo seus doces e recebendo uma provocação política me deixou assim. Doeu. E eu chorei.

Tenho um netinho autista e com síndrome de Down. Sei o quanto uma criança precisa de carinho, de paciência, de proteção. Quando vi aquele menino, pensei no meu neto. Pensei na dor que eu sentiria se alguém fizesse aquilo com ele e eu não estivesse por perto para acolhê-lo.

Mas minha indignação vai além dessa identificação. Aquela criança merecia respeito sendo autista ou não. O que me corta o coração é a ingenuidade de um menino que se aproxima para oferecer um docinho, responde com tranquilidade e acaba envolvido numa provocação que jamais deveria ter sido dirigida a ele.

Meu Deus, custava tratar aquele menino com carinho? Quem pudesse poderia até comprar todos os seus doces, para que ele voltasse mais cedo para casa. E quem não pudesse comprar poderia oferecer uma palavra boa, um sorriso, um pouco de respeito. É tão pouco diante do peso que uma criança dessas já carrega.

Criança precisa de adulto que cuide. Precisa encontrar proteção quando chega perto de uma mesa, de uma porta, de outra pessoa. Saber que pode encontrar risadas às suas custas me dá uma tristeza difícil de explicar.

O que mais dói é a distância, essa sensação de querer estar ali para dizer: “Venha cá, meu filho. Você merece carinho. Você merece ser bem tratado”.

Eu não consigo ficar calado. Minha voz sai embargada, meus olhos se enchem de lágrimas, mas eu preciso falar. Não podemos nos acostumar a ver uma criança passar por constrangimento e tratar isso como uma brincadeira qualquer.

Naquele menino eu enxerguei meu neto. E enxerguei tantas outras crianças que precisam de nós. É por elas que eu choro. E é por elas que eu não quero perder a coragem de denunciar o que me dói.

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