Entre a dor do povo e o voto garantido: quando a saúde vira balcão político

Na última sessão da Câmara de Valença, o vereador Benvindo da Saúde subiu à tribuna com um discurso que, à primeira vista, parecia daqueles que tocam o coração.
Falou da casa de apoio em Salvador, lembrou dos pacientes de oncologia, descreveu o sofrimento de quem precisa viajar para tratamento… e até aí, nada a contestar. Aliás, tudo muito justo.
O problema começa quando a fala sai do campo da sensibilidade e entra no terreno onde política e conveniência costumam andar de mãos dadas.
Ao criticar duramente a Policlínica, dizendo que “não funciona”, que está há mais de um ano com equipamento quebrado e que não atende a população, o vereador abre uma porta que talvez não tenha percebido… ou percebeu bem demais.
Porque, logo em seguida, ele mesmo revela como o sistema realmente tem funcionado na prática: consegue exames por fora, aciona contatos em Salvador, resolve casos com rapidez, e, como ele próprio disse, “tem custo”.
E é aqui que mora o ponto mais interessante dessa história.
Quando o sistema falha… nasce o “herói”
A lógica é simples, quase matemática: se a saúde pública funciona bem, o cidadão resolve sua vida direto no sistema. Mas se a saúde falha… ele procura alguém. E esse “alguém” geralmente tem nome, sobrenome e mandato.
É aí que entra o velho modelo da política assistencialista, aquele em que o vereador vira ponte, atalho, facilitador… e, claro, referência na hora do voto.
A contradição que ninguém ignora
O discurso do vereador critica o sistema público, mas ao mesmo tempo revela dependência de um modelo paralelo: um modelo onde, exame não vem pela fila, vem pelo contato, atendimento não é garantido, é conseguido e o direito vira favor
E quando isso acontece, a pergunta que fica no ar é inevitável: o problema é a falha do sistema… ou a perda de protagonismo quando ele funciona?
Política ou solução?
A Policlínica, apesar das falhas que devem sim ser cobradas, tem um objetivo claro: tirar o cidadão da dependência de intermediários, organizar o acesso à saúde, garantir atendimento sem “atalhos”. Ou seja: menos política, mais sistema.
E talvez seja justamente isso que incomoda.
No fim das contas…
O vereador acerta ao cobrar a casa de apoio. Acerta ao falar do sofrimento do povo. Acerta ao apontar problemas.
Mas escorrega quando transforma a falha do sistema em palco para manter um modelo onde: quanto mais dificuldade, mais o político aparece, quanto mais sofrimento, mais o “resolvedor” ganha espaço.
Se a saúde funciona, o mérito é do sistema. Se a saúde falha, o mérito vira do político que “resolve”.
E no meio disso tudo, quem continua correndo atrás de exame, estrada e dignidade… é o povo.
Sempre o povo.






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