(RE)CONHECER A ESCRAVIDÃO EM VALENÇA

por Silvana Andrade dos Santos

Existiram pessoas escravizadas em Valença.

Estas pessoas foram empregadas no trabalho rural, nas roças de mandioca, cacau e de cana, entre outros gêneros. Também foram utilizadas como mão de obra na Fábrica Têxtil Todos os Santos. Mas não só, elas desenvolveram formas de resistência, laços de solidariedade e sociabilidade, e deixaram legados culturais que são visíveis hoje na sociedade valenciana.

Imagem: Anúncio de venda da Fábrica Todos os Santos confirma a existência de 59 pessoas escravizadas na empresa em 1858. Fonte: Fundação Biblioteca Nacional. Hemeroteca Digital Brasileira. Correio Mercantil (Rio de Janeiro). Ano 15, número 154, 8 de junho de 1858, p. 3.

Essas afirmações podem causar surpresa em alguns leitores e leitoras, eu entendo. Por muito tempo, a História se resumiu à narração e ao enaltecimento de feitos políticos e econômicos realizados por membros da elite. Há algumas décadas, no entanto, produções realizadas por pesquisadores e pesquisadoras e por movimentos sociais, tanto sobre o Brasil, como sobre Valença, têm trazido à tona a presença e as contribuições da população africana e afrodescendente para a formação da nossa sociedade, bem como o peso que a escravidão teve na constituição das enormes desigualdades que a permeiam.

A existência destas pesquisas e movimentos, a farta documentação disponível em arquivos (parte da qual pode, inclusive, ser acessada virtualmente e gratuitamente), e os registros vivos na memória de valencianos e valencianas evidenciam a presença da população africana e afrodescendente em Valença muito antes do ano de 1888. Assim, se torna insustentável afirmações como a realizada nas redes sociais da Prefeitura de Valença no último dia 10 de novembro, sobre a inexistência da escravidão no município.

No século XXI, com acesso à informação, literalmente, na palma das nossas mãos, não deve haver espaço para propagação de afirmações tão imprecisas e equivocadas como aquela. Mas, é sempre tempo de aprender. Se se considera que os debates sobre a presença escrava em Valença ficam restritos em determinados grupos, talvez seja hora do poder público contribuir, justamente, para a promoção de espaços voltados para se (re)conhecer a existência da escravidão em Valença.

Sobre a autora: Silvana Andrade dos Santos, é graduada em História pela Universidade do Estado da Bahia, Mestra e Doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense e Pós-doutoranda em História na Universidade de São Paulo. Há mais de uma década se dedica a estudar a escravidão em Valença. Recentemente, lançou o livro “Tecido pela escravidão: tráfico e indústria na Fábrica Têxtil Todos os Santos (Bahia, c. 1840-1870)”.

Para saber mais sobre a escravidão em Valença:

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3 Resultados

  1. Edson F disse:

    Da UFF e cavucou os porões da BN. Ñ tem como errar.

  2. Ainda hoje existem escravos em todos os lugares do que é conhecido como mundo. Os entendidos como índios são tratados como escravos, os conhecidos como indígenas são tratados como escravos, os negros são tratados como escravos, alguns tidos como brancos são tratados como escravos, os tidos como pardos, até onde vejo e entendo, são tratados como escravos. E, na grande maioria das vezes, isso nem depende da quantidade de dinheiro que estes tidos como escravos tenham em mãos ou das propriedades das quais sejam proprietários. De qualquer modo, sempre para quem não tem dinheiro é ainda pior, e para os que tem, serem estudados como cobaias, e verem os que aparentemente não tem e os que não têm mesmo, também serem estudados com estes sofrimentos das cobaias experimentais, é ainda mais desgastante, e assim chega-se à compreensão de que o problema não é só o dinheiro, mas, sim, o problema, é a constante vontade, predisposição do homem para matar, roubar, destruir, torturar, raptar, destratar, odiar, ou seja, fazer sofrer os outros. Para o homem atual todos e todas devem morrer, e morrer com sofrimentos e, com certeza, sofrendo. Todos e todas devem morrer, só não ele mesmo.
    Ass.: Bur, Burr, Bura, Elisvaldo Pereira Santos e Jedidias Pereira Santos.

  3. Essa é uma das verdades verdadeiras que poucos, ou até, pouquíssimos mesmo, conseguem ver e discernir. E quando estes deixarem de perceber isso é porque terão voltado para a escravidão. Nunca por escolha própria. Nunca como escravos de si mesmos. Já tinham dono ou donos de escravo e/ou escravos antes dele/s mesmo/s, ou seja, dos escravos, os quais nunca podem ter opção de escolherem-se a si próprios como escravos de si mesmos. Quem defende que isso é impossível, um escravo ou ‘apenas tido como escravos’, escolher-se com primeira opção, depois de terem escolhido, verdadeiros pai e mãe, filhos e filhas como sempre libertos de todos os males, ainda não compreende o conhecimento popular: “Quem quer ver uma coisa (algo) bem feita/o, vá e faça”. Uma das técnicas de escravização é essa mesmo. Um escravo ou sempre tidos
    como escravos – para os quais tudo isso ocorre de um modo ainda pior, nunca melhor, porque sempre devemos ser mais escravos ainda do que fomos um dia mesmo nunca tendo sido isso mesmo, estando sempre e sempre ‘apenas sendo tidos como escravos’, nunca sendo escravos, apenas vivendo como escravos, etc. – nunca pode/m perceber, entender, compreender, discernir, que são conhecidos, tratados, tidos sempre, sempre, mais que sempre, como escravos.
    Ass.: Bur, Burr, Bura, Elisvaldo Pereira Santos e Jedidias Pereira Santos.

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