Quem é a senhora? De onde vem?
Não é Ruanda, Etiópia ou Haiti. Desgraçadamente, é aqui. Ou melhor, ali… e, ironicamente, em frente a um ícone, a um templo de riso e diversão: o circo. Do Circo Picollino e do imenso mar de Patamares.
No que restou de uma poça d’água, depois que um vira-latas (e esse calor que nos visita fora de época) saciou sua sede, foi a vez de uma destas tantas pessoas, que fazem do perambular sem rumo, sua fuga, usar o que restou da chuvarada rápida.
Como se saída de histórias que retratam os horrores do holocausto ou das intempéries que devastam o continente africano, uma mulher começa um chocante ritual que tem a potência de um direto no queixo. Não importa quem você é, a imagem e os atos que se seguem são devastadores e te jogam na lona. Impertubável, como se em transe, lentamente ela se despe. Sem se importar com quem passa a pé ou a bordo de seus “jatomóveis” pela avenida, em minutos está nua. Como se implodisse, fica de cócoras e, com as mãos postas em forma de conchas, se banha. Tem espaço para um enigmático e triste sorriso que vai emoldurar um rosto castigado pelo sol, machucado pelo tempo e pelo descaso.
A poça, agora, é sua palaciana banheira imaginária: o asfalto que serve de borda para represar a água barrenta é como reluzente mármore negro; o celestial céu azul que paira sobre sua cabeça é um teto de cristal e a sua frente tem uma imensa janela invadida pelo mar de Patamares. Sua varanda não tem fim e não termina no horizonte.
Ainda de cócoras, usa o minúsculo pedaço de sabão que tão bem lhe serviu em seu banho para, freneticamente, lavar o vestido de chita barata, que minutos antes a cobria e diminuía a dor de vê-la tão exposta. O que choca não é sua esquelética e assustadora magreza, mas imaginar o que não foi feito por ela, para deixá-la, assim. Finda a tarefa, se vestiu e juntou suas coisas, mecanicamente.
Parei ao seu lado e fiz três perguntas. As respostas vieram quase monossilábicas.
Quem é a senhora, quantos anos tem e de onde veio: “Maria…mas me conheço ‘de’ Nêga”. Acha que tem (quase ou pouco mais de) 60 anos. Não lava sua roupa ou se banha no mar “por que lá, nunca vou”. Veio do interior. Deixou filhos e família pelo mundo. “Por desgosto”. Quando perguntei “onde estão?”. Respondeu com um olhar carregado de tristeza e distante. Sua fragilidade é de doer. Me disse algo que não entendi, virou de costas e se pôs a andar.
“Não se anda por onde gosta, mas por aqui não tem jeito, todo mundo se encosta. Ela some é lá no ralo…”.






Gostaria de saber se não mais fotos do desfile? Participei e esse dia marcou minha vida
Decisão acertada
É a política no Baixo Sul do Estado da Bahia.
Realmente não tem dono. Tem colonizadores. Povo valenciano não manda em nada rs.
janeiro 9, 2026 às 4:28 pm Excelente texto! Mas, tem babacas que não entendem o que é soberania ou não…